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Wednesday, February 13, 2008

CÉRBERO ou O PORTEIRO PELADEIRO




Na mitologia grega: Cerberus, cão que guardava o reino dos mortos, (onde a alma entrava e jamais saía) e destroçava mortais que se aproximassem.








Antes do teatro, também fora porteiro do cinema. Nas circunstâncias da época, a portaria do

Théâtre de La CIté

significou uma promoção. Resultado, talvez, do sucesso no cargo anterior. Pensar que o trabalho na portaria no cinema caiu no seu colo porque os franceses o evitavam, torna a conquista ainda mais intrigante. Ocorre que os franceses "donos da casa" enfrentavam diariamente um grupo de fortes africanos, que inventaram uma onda de entrar no cine da Cité sem pagar ingresso. Era porradaria na porta toda noite. Nenhum francês queria o posto de porteiro. Que lhe foi oferecido, sem prévio aviso sobre a história dos africanos valentes.



Duro, precisando de dinheiro e desinformado sobre as tendências da moda naquele lugar, agradeceu o apoio a um latino- americano em dificuldades e se preparou para o trabalho. Parecia fácil: afinal, aqueles europeus são desenvolvidos, pontuais e ordeiros. Seria preciso, apenas, jantar no bandejão, duas vezes por semana, tomar um café e esperar a hora do início da única sessão noturna de cinema. Tarefas? Somente recolher os bilhetes na entrada e preparar um relatório, junto com o responsável pela bilheteria. Pensava eufórico como Régis Debray² havia influenciado a intelectualidade francesa. Comovente solidariedade. (Pensando bem, muito cá entre nós: uma moleza, né? )




Partiu, depois do jantar, para seu primeiro dia/noite de trabalho.


Surpresa na chegada. Um grupo de 20 africanos, com jeito de oriundos de ex- colônias, aglomerado na frente da bilheteria, a impedir a formação de fila para aquisição dos ingressos. O responsável pela venda dos bilhetes lançava um olhar aterrorizado e suplicante, como se tudo ao redor estivesse prestes a desabar sobre sua cabeça.


Quando o porteiro se aproximou, todas as atenções se voltaram naturalmente para ele. Os negões tomavam posição para entrar na marra, sem pagar ingresso nem pedir licença.Quem os impediria de ir adiante? Aquele novato no pedaço? Além de tudo, magro e franzino...



Quando a turma se preparava para a boca livre cinematográfica, um comentário deixou a todos semi- paralizados. Alguém, dentre eles, disse: é o brasileiro ( c´est le brésilien du foot" ). Em pleno pós- copa de 70, o futebol do Brasil desfrutava de grande prestígio. Pelé, Jairzinho e Tostão reverenciados a todo instante. Não tanto quanto Régis Debray o era por uma parte da geração daqui dos trópicos. Mas a admiração era uma unanimidade. Isso assegurava aos brasileiros residentes, de saída, uma vaga inquestionável nas peladas nas tardes dos sábados, ou nas manhãs dos domingos.



O peladeiro travestido de porteiro fora reconhecido e salvo pelo gongo aos 45 minutos do segundo tempo. Os agressivos cinéfilos avisaram-no de que entraria na porrada, se ficasse no meio do caminho, querendo receber os inexistentes ingressos. Como já dito, era uma época de solidariedades e, em reconhecimeto ao bom futebol brasileiro, propuseram um acordo indecente. Que o porteiro os deixasse passar imediatamente, sem resistências. Caso contrário, preparasse o lombo, pois ia doer. A essa altura, já eram bem mais de 20 de um lado, o porteiro do outro e o bilheteiro estrategicamente escondido embaixo do balcão. A visão do cine vazio contribuía para dramatizar, ainda mais, a grande expectativa pelo início da contenda. Só faltava o trilar de um apito ou um berro: allez!




Após rápida preparação, que incluiu brevíssimo discurso sobre solidariedade e a citação do Barão de Coubertin ( "o importante é competir"), o peladeiro em apuros tentou elaborar síntese dialética, denunciando sua precária formação filosófica.Tomado de providencial instinto social- democrata, propôs: a) deixem entrar quem pagou ingresso;b) deixem livres a frente da bilheteria e a porta de entrada e... c) quando a luz se apagar, entrem em silêncio e em ordem. Trato aceito, e rigorosamente cumprido pelas partes (!!)... Os franceses adoraram e fizeram de conta que a normalidade se restabelecera. Pelo menos a receita da bilheteria parou de cair e a ordem capitalista voltou a reinar na portaria. Assim, o emprego e outros posteriores turnos adicionais foram conquistados naquele dia de liberdade mitigada de mercado. Daí em diante, só no turno do porteiro- peladeiro reinaria o sossego.



Os administradores também temiam a ampliação do problema da pancadaria do térreo para o 1°andar. Nesse local privilegiado funcionava o Teatro da Cité onde apresentava o Magic Circus com a peça Zartan, o irmão mal- amado do Tarzan. Na primera oportunidade, o porteiro do cinema foi promovido a porteiro de teatro, sem levar um beliscão.Tudo graças aos tricampeões do mundo, que lhe deviam essa. Afinal, em plena comemoração da Copa de 70, o porteiro- peladeiro chorara de tristeza ao ver o povão verde amarelo vibrando nas ruas, o pau comendo em cima dos nossos heróis encurralados e a repressão nos seus calcanhares.


Saíra do Brasil, realizando sua primeira viagem aérea.


Jamais seria guardião da porta do inferno.







1- Parece que Debray continua tentando, sem sucesso. Ver recente artigo: Interesse geral sem charme

http://www.lemonde.fr/opinions/article/2008/02/07/l-interet-general-demagnetise-par-regis-debray_1008625_3232.html

2-Essa crônica é dedicada ao Fábio, que a inspirou durante troca de e-mails, e à Verinha, que acredita em tudo que conto (e publica!)

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2 Comments:

Anonymous Newton Braga Rosa said...

Arthur

esta foia a cronica que mais gostei.
Tem algumas perolas como "finalemnte, ordem capitalista voltou a reinar na portaria" e "a liberdade mitigada do mercado".
Valeu

02 June, 2008  
Blogger José said...

Pra quem viveu na Cité durante os anos 70 e participou de mutas das atividades (Foot,bandijao,passeios outonais....) faz com que as lagrimas escorram e o coracao palpite com mais intensidade.
Valeu meu amigo,bela cronica.
Passei por algo semelhante em 75 por ocasiao do carnaval na Maison du Bresil.

31 March, 2011  

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