Cité Universitaire: Maison de Norvège
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Na mitologia grega: Cerberus, cão que guardava o reino dos mortos, (onde a alma entrava e jamais saía) e destroçava mortais que se aproximassem.
Antes do teatro, também fora porteiro do cinema. Nas circunstâncias da época, a portaria do
Théâtre de La CItésignificou uma promoção. Resultado, talvez, do sucesso no cargo anterior. Pensar que o trabalho na portaria no cinema caiu no seu colo porque os franceses o evitavam, torna a conquista ainda mais intrigante. Ocorre que os franceses "donos da casa" enfrentavam diariamente um grupo de fortes africanos, que inventaram uma onda de entrar no cine da Cité sem pagar ingresso. Era porradaria na porta toda noite. Nenhum francês queria o posto de porteiro. Que lhe foi oferecido, sem prévio aviso sobre a história dos africanos valentes.
Duro, precisando de dinheiro e desinformado sobre as tendências da moda naquele lugar, agradeceu o apoio a um latino- americano em dificuldades e se preparou para o trabalho. Parecia fácil: afinal, aqueles europeus são desenvolvidos, pontuais e ordeiros. Seria preciso, apenas, jantar no bandejão, duas vezes por semana, tomar um café e esperar a hora do início da única sessão noturna de cinema. Tarefas? Somente recolher os bilhetes na entrada e preparar um relatório, junto com o responsável pela bilheteria. Pensava eufórico como Régis Debray² havia influenciado a intelectualidade francesa. Comovente solidariedade. (Pensando bem, muito cá entre nós: uma moleza, né? )
Partiu, depois do jantar, para seu primeiro dia/noite de trabalho.
Surpresa na chegada. Um grupo de 20 africanos, com jeito de oriundos de ex- colônias, aglomerado na frente da bilheteria, a impedir a formação de fila para aquisição dos ingressos. O responsável pela venda dos bilhetes lançava um olhar aterrorizado e suplicante, como se tudo ao redor estivesse prestes a desabar sobre sua cabeça.
Quando o porteiro se aproximou, todas as atenções se voltaram naturalmente para ele. Os negões tomavam posição para entrar na marra, sem pagar ingresso nem pedir licença.Quem os impediria de ir adiante? Aquele novato no pedaço? Além de tudo, magro e franzino...
Quando a turma se preparava para a boca livre cinematográfica, um comentário deixou a todos semi- paralizados. Alguém, dentre eles, disse: é o brasileiro ( c´est le brésilien du foot" ). Em pleno pós- copa de 70, o futebol do Brasil desfrutava de grande prestígio. Pelé, Jairzinho e Tostão reverenciados a todo instante. Não tanto quanto Régis Debray o era por uma parte da geração daqui dos trópicos. Mas a admiração era uma unanimidade. Isso assegurava aos brasileiros residentes, de saída, uma vaga inquestionável nas peladas nas tardes dos sábados, ou nas manhãs dos domingos.
O peladeiro travestido de porteiro fora reconhecido e salvo pelo gongo aos 45 minutos do segundo tempo. Os agressivos cinéfilos avisaram-no de que entraria na porrada, se ficasse no meio do caminho, querendo receber os inexistentes ingressos. Como já dito, era uma época de solidariedades e, em reconhecimeto ao bom futebol brasileiro, propuseram um acordo indecente. Que o porteiro os deixasse passar imediatamente, sem resistências. Caso contrário, preparasse o lombo, pois ia doer. A essa altura, já eram bem mais de 20 de um lado, o porteiro do outro e o bilheteiro estrategicamente escondido embaixo do balcão. A visão do cine vazio contribuía para dramatizar, ainda mais, a grande expectativa pelo início da contenda. Só faltava o trilar de um apito ou um berro: allez!
Após rápida preparação, que incluiu brevíssimo discurso sobre solidariedade e a citação do Barão de Coubertin ( "o importante é competir"), o peladeiro em apuros tentou elaborar síntese dialética, denunciando sua precária formação filosófica.Tomado de providencial instinto social- democrata, propôs: a) deixem entrar quem pagou ingresso;b) deixem livres a frente da bilheteria e a porta de entrada e... c) quando a luz se apagar, entrem em silêncio e em ordem. Trato aceito, e rigorosamente cumprido pelas partes (!!)... Os franceses adoraram e fizeram de conta que a normalidade se restabelecera. Pelo menos a receita da bilheteria parou de cair e a ordem capitalista voltou a reinar na portaria. Assim, o emprego e outros posteriores turnos adicionais foram conquistados naquele dia de liberdade mitigada de mercado. Daí em diante, só no turno do porteiro- peladeiro reinaria o sossego.
Os administradores também temiam a ampliação do problema da pancadaria do térreo para o 1°andar. Nesse local privilegiado funcionava o Teatro da Cité onde apresentava o Magic Circus com a peça Zartan, o irmão mal- amado do Tarzan. Na primera oportunidade, o porteiro do cinema foi promovido a porteiro de teatro, sem levar um beliscão.Tudo graças aos tricampeões do mundo, que lhe deviam essa. Afinal, em plena comemoração da Copa de 70, o porteiro- peladeiro chorara de tristeza ao ver o povão verde amarelo vibrando nas ruas, o pau comendo em cima dos nossos heróis encurralados e a repressão nos seus calcanhares.
Saíra do Brasil, realizando sua primeira viagem aérea.
Jamais seria guardião da porta do inferno.
1- Parece que Debray continua tentando, sem sucesso. Ver recente artigo: Interesse geral sem charme
http://www.lemonde.fr/opinions/article/2008/02/07/l-interet-general-demagnetise-par-regis-debray_1008625_3232.html2-Essa crônica é dedicada ao Fábio, que a inspirou durante troca de e-mails, e à Verinha, que acredita em tudo que conto (e publica!)
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Sartre volta à Cité Universitaire
Em 1971, Jean-Paul Sartre provocou grande frisson na Cité Universitaire em Paris. Participou de ato em favor da Palestina na Maison du Maroc. Estudantes de várias partes do mundo e residentes da cidade universitária acorreram ao evento, mobilizados pela solidariedade e curiosidade: apoiar e ver o filósofo do século XX de perto. Pequenino, estrábico e militante ativo. Junto com a companheira, Simone de Beauvoir, armara uma mesinha na entrada do auditório, local onde vendia ostensivamente o jornal La Cause du Peuple. Uma enorme emoção para quem só o conhecia através das fotos dos seus livros. E surpresa também. Aquele muito pequenino militante parecia ainda mais impressionante porque real. Minúsculo, pouco mais de metro e meio, e uma presença gigantesca e atordoante ao mesmo tempo. Próximo, respondendo pacientemente a perguntas triviais ao lado da banca improvisada (sim, estivera no Brasil, caipirinha, Celso Furtado, etc).Desconcertante quando falava diretamente, o olhar endereçado por cima do ombro do interlocutor, consequência exclusiva do seu forte estrabismo.
Lá estava o diretor do La Cause du Peuple assumindo as tarefas de intelectual engajado, militante e defensor da liberdade de expressão. Dispunha-se a exercer a direção do jornal para assegurar a sua continuidade de funcionamento. Emprestava o nome para evitar que as sucessivas prisões dos dois antecedentes diretores daquele periódico resultassem no seu fechamento definitivo.Quem prenderia Sartre? Naquele momento, assumira uma responsabilidade legal (dar o nome ao jornal), mas não a política de endossar as teses dos maoístas. O que viria a ocorrer gradualmente. Talvez ainda estivesse viva em sua memória a firme e emblemática recomendação, posta em cima da mesa, quando os estudantes lhe passaram a palavra em evento na Sorbonne de 68: senhor Sartre, seja breve.
Aos 66 anos, inquieto, retornava à Cidade Universitária onde estivera com Simone ainda bem jovem. Ali residira e se preparara para o disputado concurso ao cargo vitalício de professor do ensino secundário da escola pública. Pode-se imaginar, ainda hoje, uma grande quantidade de guimbas de Gauloises e o ambiente embaçado pela fumaça. Não é difícil sentir o ar azedo, o odor acre do seu quarto, as janelas fechadas, na Maison Deutsh de la Meurthe.
Mas, no auditório da Maison du Maroc, estavam o primeiro colocado e a segunda na prova de seleção de 1929, e o inconfundível cheiro de tabaco; agora discursando para outra geração. Aquela que ainda vivia o rescaldo de maio de 1968, quando se passou a adotar as moradas mistas na Cité Universitaire. E, inacreditável(!!!) os estudantes residentes não podiam mais deixar os sapatinhos e as botas nas portas dos quartos. As empregadas não os recolheriam para escová-los e engraxá-los diariamente, logo ao amanhecer. É provável que várias botas tenham voado pelas janelas no auge das agitações de 68. Ao menos assim contava, às gargalhadas, uma femme de ménage portuguesa esperta e muito falante, na Maison de Norvège .
A palestra foi um acontecimento. Auditório lotado. Estudantes de todos os cantos do mundo: sotaques os mais variados.Terminada a manif, discursos e panfletagens realizadas, dirigia-se Sartre a comer no restô (no bandejão mesmo ), em companhia de um intrometido garoto brasileiro que nunca vira ou de quem nunca ouvira falar, e cujo nome só conseguia pronunciar com um sotaque fortemente arrastado. Dizem alguns que, durante sua estada no Brasil, no início dos anos 60, o filósofo encantara-se com uma jovem pernambucana e lhe propusera casamento. No evento do bandejão nada fora possível apurar. Até aquela oportunidade, o seu jovem interlocutor, além de atordoado e faminto, jamais ouvira falar de Cristina Tavares. Só descobriria, bem mais tarde, que e o país ganhara uma combativa militante do MDB autêntico e corajosa deputada constituinte em 1988.
Portanto, que se resgate a verdade histórica: ao menos uma vez, Sartre retornou à Cité Universitaire com sua Simone, muitos anos depois de lá ter vivido. Agora então, para falar da Palestina,vender La Cause du Peuple, rangar no restô Sud, e, pacientemente, ouvir de um abobalhado brasileiro que ele parecia mais alto nos livros (nos retratos 3X4 das contracapas!! ) que ao vivo.
O virtual se sobrepunha ao real na imaginação daquele estudante?
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